Novas considerações científicas sobre nitratos e nitrito 1. Introdução
Nitratos e nitritos estão entre os mais antigos, multifuncionais e importantes aditivos alimentares. Seu uso está intimamente relacionado à salga na conservação de carnes e peixes, que remonta a pelo menos 3000 a.C.
Suas aplicações e funcionalidades são bastante amplas, agindo como conservante, antioxidante e agente de cor e de sabor e, por isto, de imprescindível uso. Assim, a indústria e os consumidores têm se beneficiado com a utilização desses ingredientes, porque conferem maior estabilidade aos produtos.
Há quem entenda que esses ingredientes causam danos à saúde dos consumidores, com o argumento de que podem formar nitrosaminas cancerígenas. Contudo, pesquisas mostram que os nitratos e nitritos, por serem comumente encontrados na natureza, fazem parte integral da fisiologia e contribuem de forma importante para a segurança alimentar e à saúde humana.
2. Funcionalidades
Nitratos e nitritos são reconhecidos como aditivos alimentares multifuncionais, que desempenham pelo menos quatro funções importantes em um sistema cárneo:
- Efeito cor: ação estabilizadora da cor rósea atrativa de muitos produtos cárneos; - Efeito sabor: ação como agente de sabor e do "bouquet" típicos e únicos dos produtos cárneos curados;
- Efeito conservante: ação bactericida ou de inibição ao crescimento de micro-organismos, principalmente contra o botulismo;
- Efeito antioxidante: ação inibitória aos processos físico-químicos e microbiológicos que induzem ao ranço oxidativo.
3. Reações de cura/maturação
O nitrato (NO3), por si só, não tem capacidade de reagir e conferir os efeitos funcionais em produtos cárneos ou em sistemas biológicos/fisiológicos. Precisa ser convertido em nitrito (NO2) e depois em óxido nítrico (NO). Este, por sua vez, reage com o ferro do pigmento heme e gera o pigmento nitrosomioglobina, de cor rósea estável, típica dos produtos curados.
A intensidade dessas reações depende de algumas condições, tais como a presença e a ação de determinados micro-organismos, agentes redutores naturais na carne (antioxidantes naturais/vitaminas), enzimas mitocondriais, antioxidantes adicionados, pH do meio, potencial de oxirredução, tipo e forma de embalagem, pressão de oxigênio e tempo e temperatura de conservação/armazenamento.
4. Ingestão de nitratos e nitritos e o risco de câncer
Existe uma polêmica, desde o início da década de 1970, de que a ingestão de nitratos/nitritos é perniciosa para a saúde humana, principalmente como potenciais causadores de câncer gástrico, devido à sua reação com aminas secundárias e a eventual formação de nitrosaminas.
Porém, ainda em 1975, foi descoberto por MIRVISH (1975) que o ácido ascórbico (e as várias formas de vitamina C) inibe eficazmente a formação desse composto indesejável. Posteriormente, em 1996, também se confirmou que o α-tocoferol (vitamina E) apresenta o mesmo efeito positivo. Portanto, estes antioxidantes são utilizados comumente nos modernos processos de carnes curadas e em embutidos diversos, sendo também contemplados pela legislação brasileira.
5. Estudos Epidemiológicos
Apesar das controvérsias, diversos estudos epidemiológicos não conseguiram comprovar de forma clara o paradigma da associação entre a ingestão de nitrato/nitrito e o risco de câncer humano. Suas conclusões são consideradas por muitos autores como discrepantes, inconsistentes e limitadas, quando criteriosamente analisadas sob mérito científico.
Em 1982, a Academia Nacional de Ciências (EUA) exigiu uma avaliação minuciosa acerca da relação entre nitrito e câncer, a qual ficou a cargo do FDA e foi denominada “National Toxicology Program – NTP”(20). Seus resultados foram avaliados por um painel científico
no ano de 2000, sem evidências de carcinogenicidade induzida por nitrito. Esse estudo caracterizou de forma definitiva a segurança do nitrito como ingrediente alimentar. Estudos epidemiológicos mais recentes reconfirmam a falta de consistência e de resultados não conclusivos ou dúbios dos diversos trabalhos realizados no passado, bem como reforçam a necessidade da mudança desse paradigma e da reconsideração da segurança dos nitratos/nitritos(8). SONG et al. (2015), sem conflito de interesse, realizaram estudo de metanálise de artigos relevantes publicados até agosto de 2015 no MEDLINE (PubMed: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/ pubmed).
Foram incluídos 22 artigos com 49 estudos e seus resultados estatísticos sugerem que existe baixa associação entre ingestão de nitratos alimentares e o risco de câncer gástrico. O exagerado consumo de nitritos poderia aumentar esse risco, apesar de os autores não terem apresentado absoluta confiabilidade desses resultados, sugerindo a necessidade da realização de estudos prospectivos e bem concebidos, de maior abrangência, para melhor se compreender esta etiologia, realizaram, também sem conflito de interesse, metanálise de estudos epidemiológicos igualmente publicados no MEDLINE: 49 estudos para nitrato e 51 para nitrito, correspondendo ao total de 60.627 casos de diversos cânceres. A ingestão de nitrato pela dieta foi inversamente associada ao risco de câncer gástrico, bem como não foram encontradas associações significativas entre a ingestão de nitrato/ nitrito e câncer de mama, bexiga, colorretal, esôfago, células renais, linfoma não Hodgkin, ovário e pâncreas.
Evidentemente que esse tema continua polêmico, porque ocasionalmente são publicados trabalhos com respostas diferentes. Como o de HERRMANN et al. (2015), que encontraram correlação positiva entre a formação de alguns compostos N-nitrosos e a quantidade de nitrito adicionado em linguiças suínas cozidas. Contudo, a formação de N
nitrosaminas foi inibida proporcionalmente pela quantidade adicionada de ácido eritórbico. Porém, em presença de ferro livre, essa inibição foi neutralizada.
Assim, esses autores concluíram que diferentes fatores estão envolvidos na eventual formação de N-nitrosos em produtos cárneos, caracterizando a complexidade deste assunto(23). Outrossim, está bem estabelecido por conceitos médicos atuais(24,25,26,27) que a crescente estatística de casos de cânceres e outras doenças de origem imunológica e/ou inflamatórias são multifatoriais e, principalmente, em razão das mudanças de estilo de vida e dos hábitos alimentares. Alimentos refinados e/ou modificados, diante de uma
ingestão exagerada, são percebidos como antígenos pelo organismo e causam inflamações e perda da homeostase(25,26,27). Outros fatores são preponderantes para a prevalência do câncer gástrico, como obesidade, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, baixo consumo de frutas/vegetais e, principalmente, a infecção pelo H. pylori(2).
A despeito do aumento da taxa de mortes por diversos cânceres (pulmão, colorretal, pâncreas e próstata), as causadas pelo câncer de estômago têm diminuído desde 1970 (no Japão/EUA)(28), possivelmente emvirtude do maior controle das infecções pelo H. pylori. Assim, não é racionalmente concebível que nitratos/nitritos presentes em produtos cárneos sejam considerados vilões(2).
Até porque, desde o Império Romano (séc. 10), a sua ingestão tem sido considerável nos países europeus. Deve-se também considerar as modernas práticas industriais que inibem a formação das N-nitrosaminas.
6. NITRATO NATURAL NOS VEGETAIS
Alimentos naturais, principalmente os vegetais verdes e frutas, são ricos em nitrato e, portanto, são significativas fontes para a síntese endógena de nitrito e óxido nítrico no organismo humano e outros mamíferos, sendo responsáveis por aproximadamente 80% do nitrato ingerido, com efeitos benéficos para a saúde. Alguns exemplos do teor de nitrato natural presentes em vegetais cultivados de acordo com as boas práticas agrícolas são o espinafre, com 8.000 ppm; o alface, 5.000 ppm; o aipo, 4.200 ppm; e a beterraba, 3.500 ppm. Esses valores, em alguns casos, são bem superiores aos limites legais estabelecidos pela legislação europeia, que é de 2.000 ppm (“Regulation EC nº 1.129/2011”) Típico contrassenso entre o legal e o real.
A principal razão do elevado teor de nitrato de sódio em vegetais é porque ele participa, em sua forma NO-3, do ciclo do nitrogênio para a síntese de proteína e de outros compostos de nitrogênio nas plantas, sendo absorvido pelo trato gastrointestinal quando da ingestão dos mesmos.
7. CONCLUSÃO
A discutível formação de N-nitrosaminas carcinogênicas a partir da adição de nitratos e nitritos em produtos cárneos é um tema polêmico e, por muito tempo, será enfrentado com reserva pela comunidade científica e pelos órgãos legisladores. Contudo, confirmações científicas sólidas mostram que essas moléculas existem no meio natural e são cruciais para a homeostase fisiológica e, portanto, imprescindíveis para o bem-estar humano. Outrossim, está bem estabelecido que as modernas tecnologias de fabricação podem, de forma eficaz, amenizar ou inibir a formação desses metabólitos indesejáveis e que a eventual geração dos mesmos ou as suas consequências são de natureza complexa e não estão restritas aos produtos cárneos. Portanto, os benefícios da utilização racional desses ingredientes na indústria de carnes são, indiscutivelmente, mais benéficos do que maléficos à segurança alimentar e à saúde dos consumidores.
Rubison Olivo, farmacêutico bioquímico, diretor-presidente da Olivos – Ciência & Fonte: Tecnologia CarneTec.